sábado, 22 de março de 2014

LISBOA: Eclésia- A Rádio da Igreja católica ou do governo?

Eclésia: A Rádio da Igreja Católica ou do Governo?
Por Rafael Marques de Morais 
Fonte: Maka Angola
Divulgação: Planalto De Malanje rio capôpa
 22 de Março, 2014
O Ministério da Comunicação Social (MINCS) tem estado a financiar a Rádio Ecclesia, mas o governo não autorizou ainda o reconhecimento jurídico da emissora, que foi devolvida à Igreja Católica em 1997.

Em simultâneo, neste último ano, a Rádio Ecclesia despediu vários jornalistas, cancelou programas sem olhar a audiências, e avolumam-se as acusações de censura contra a actual direcção.

Patrocínio Estatal

Maka Angola teve acesso a dois documentos comprovativos de uma ordem de saque do Ministério das Finanças, no valor de cinco milhões de kwanzas (US $50,000) a favor de uma conta da rádio, no Banco de Fomento de Angola. A verba é descrita como “apoio do MINCS àRádio Ecclesia”.

O director-geral da Rádio Ecclesia, padre Quintino Kandanji, declarou ao Maka Angola que tem recebido apenas apoios pontuais do Ministério da Comunicação Social. “Fiz um pedido [ao MINCS] de cinco milhões de kwanzas para a festa da rádio, no final do ano passado, foi isso.”

Sobre a regularidade do apoio e os valores totais envolvidos, o padre justifica-se com um sorriso: “Gostaríamos de ter esse apoio. A Miseror, [uma instituição] da Conferência Episcopal Alemã, é quem paga os salários dos nossos trabalhadores. Temos apoios pontuais do ministério apenas.”

Segundo o director da rádio, o relacionamento com o MINCS tem sido “o de buscar caminhos para resolvermos o problema da rádio”.

Por sua vez, o director nacional de Informação do MINCS, Rui Vasco, confirmou ao Maka Angolaa cabimentação regular de verbas à Rádio Ecclesia, sem especificar montantes.

Rui Vasco esclarece que o Ministério não presta apoio mensal à Rádio Ecclesia: “É à medida da disponibilidade orçamental e em satisfação aos pedidos que nos chegam.” E afirma ainda que há parceiros que não aceitam apoio governamental por julgarem que o mesmo pode comprometer a sua independência editorial. “O que concedemos não é uma ajuda, mas o cumprimento de um dever do Estado”, acrescenta Rui Vasco.

Segundo este interlocutor, a iniciativa enquadra-se no dever do Estado de fomentar a comunicação social privada. “Apoiamos a comunicação social de uma forma geral”, diz Rui Vasco. “Se perguntar aos outros órgãos de informação privados verá que também beneficiam de apoios”, enfatiza.

Rui Vasco reforça a ideia de que o apoio do Estado à Rádio Ecclesia a tem motivações benignas: “Não há contrapartidas. Não somos um balcão onde se processa o toma lá dá cá. Não é compra. O apoio está documentado em ordens de saque. É transparente porque sai do Orçamento Geral do Estado.”

Sobre o carácter discreto dos referidos apoios, o director nacional afirma: “Nós fazemos mais do que falamos. Não somos como os americanos, que, para concederem um cheque de US $5,000 a uma instituição têm de chamar a televisão. Isso é humilhante.”

Questionado se também recebe apoios do Ministério da Comunicação Social, o director da Rádio Despertar é categórico: “Nós não recebemos qualquer apoio do governo. Se é um direito para todos os órgãos privados, então vou já pedir uma audiência ao ministro para solicitar o que nos é de direito.”

O representante do Instituto dos Mídia da África Austral (MISA-Angola), Alexandre Solombe, reclama o facto de o governo, “até agora, não ter estabelecido os critérios legais de incentivo aos órgãos privados de informação, em conformidade com o Artigo 15 da Lei de Imprensa”.

Segundo Alexandre Solombe, os critérios passam pela regulamentação da Lei de Imprensa: “O chefe do Executivo, o presidente José Eduardo dos Santos, continua a violar, desde 2006, o postulado do Artigo 87 da mesma lei, ou seja, a regulamentação da lei no prazo máximo de 90 dias após a sua promulgação.” O presidente promulgou a lei a 28 de Abril de 2006.

Linhas editoriais da Rádio Ecclesia

Rádio Ecclesia foi confiscada pelo governo em 1977, só retomando as suas emissões, em Frequência Modelada (FM), passados 20 anos.

Tornou-se na emissora líder de audiências em Luanda. No auge da popularidade da Rádio Ecclesia, em 2004, o então ministro da Comunicação Social, Hendrick Vaal Neto, acusou a emissora de praticar “terrorismo de antena”. Os ouvintes adoptavam-na como a “rádio do povo”, e a Igreja orgulhosamente assumia que a sua era a “rádio de confiança”.

Agora, a história é outra. Despedimentos colectivos de jornalistas e alterações profundas na linha editorial têm animado várias análises sobre o que terá acontecido à rádio que em tempos liderou as audiências.

Em Agosto e Dezembro passados, a direcção da Rádio Ecclesia despediu mais de 10 profissionais, entre os quais Abílio Cândido, Adriano Kubanga, Agostinho Gayeta, Hélder Luandino, Mayama Salazar, Manuel Augusto e Matilde Vanda. Actualmente, a rádio funciona com uma redacção reduzida a nove jornalistas. A direcção da rádio alega falta de fundos e indisciplina como causas de despedimento. Alguns jornalistas contra-alegam que foram despedidos pelo facto de terem um sentido crítico mais apurado.

Emissora Fantasma ou do Governo?

O apoio governamental à emissora católica é também controverso na medida em que o Estado continua a não reconhecer juridicamente aquela instituição.

O padre Quintino Kandanji refere que a proprietária da rádio, a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), tem discutido com o governo sobre a resolução do limbo jurídico em que a rádio se encontra.

“A Rádio Ecclesia nem sequer tem escritura pública. Não temos certidão de empresa”, declara.

O padre Quintino Kandanji conta que, nos seus encontros com o Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos, para tratar da escritura da rádio, lhe foi solicitada cópia do Diário da República com o decreto governamental sobre a devolução da emissora à Igreja Católica.

“Mas, o governo devolveu a rádio à igreja sem que a decisão do Conselho de Ministros tivesse sido publicada em Diário da República. Não há esse decreto de confirmação em Diário da República”, explica o director da emissora.

“Nós nem sequer podemos importar meios porque não temos os protocolos oficiais de empresa”, prossegue, acrescentando que a rádio continua a funcionar com uma licença provisória: “Até hoje não temos nada oficial.”

A 18 e 19 de Fevereiro de 1992, o Conselho de Ministros discutiu sobre o “Projecto de Decreto que anula a decisão que nacionalizou as instalações da Rádio Ecclesia ”, decidindo então pela devolução das instalações à Igreja Católica. O governo comunicou a sua decisão à Igreja Católica a 26 de Fevereiro do mesmo ano, mas o decreto nunca foi publicado em Diário da República, o que o tornou legalmente nulo.

Passado mais de um ano, a 30 de Setembro de 1993, o ministro da Comunicação Social, Hendrick Vaal Neto, emitiu um despacho autorizando a Rádio Ecclesia “a realizar as suas emissões em Frequência Modulada, Onda Média e Onda Curta”. O despacho funcionava como uma licença, uma vez que nele se podia ler: “Substitui para todos os efeitos legais o Alvará Provisório.”

Sobre o assunto, o director nacional de Informação, Rui Vasco, sublinha que o MINCS “está a trabalhar bem com a CEAST para conferir toda a legalidade a esse processo”.

De então para cá, o governo tem demonstrado a facilidade com que dispõe do ordenamento jurídico para dar com uma mão e retirar com outra. Ou seja, o governo entregou a Rádio Ecclesia, no plano material, mas conserva-a, como sua propriedade, no plano jurídico.

Rádio Despertar Acorda

O Maka Angola soube que a Rádio Despertar se encontra em situação jurídica similar à da Rádio Ecclesia.

“Tentámos abrir uma conta bancária e não foi possível, porque não temos escritura pública”, revela o director-adjunto da Rádio Despertar, Anastácio Queirós Chilúvia.

Em 2004, o Ministério da Comunicação Social concedeu um Alvará Provisório à empresa proprietária da rádio, a Academia Politécnica Lda., “exclusivamente para o licenciamento técnico das instalações e equipamentos do sistema emissor da Rádio Despertar pela entidade competente”. Por sua vez, essa entidade, o Instituto Angolano de Telecomunicações (INACOM), consignou, a 22 de Dezembro de 2004, a frequência 91,0MHz à Rádio Despertar, a fim de “não inviabilizar ou causar atrasos no processo de fabrico do equipamento destinado à estação de radiodifusão”.

Segundo a nota do INACOM, de 2004, “o curso normal de aprovação do respectivo projecto técnico, bem como do posterior licenciamento da estação referida, fica pendente de esclarecimento complementar respeitante às questões oportunamente colocadas”.

No plano material, o governo cumpriu com a parte referente aos Acordos de Paz, assinados com a UNITA. A Rádio Despertarr sucedeu à antiga Voz do Galo Negro (Vorgan), num figurino comercial e tutelado por uma empresa privada. Mas juridicamente a rádio por enquanto não existe.

A Voz Calada do Povo

Para além da questão jurídica, o governo tem apresentado argumentos ora legais ora técnicos que impedem a expansão do sinal da Rádio Ecclesia pelas províncias, através de rádios diocesanas.

Várias instituições internacionais, algumas ligadas à Igreja Católica, prestaram, em anos passados, apoio financeiro e material, avaliado em vários milhões de dólares, para a expansão da Rádio Ecclesia na maioria das 18 províncias.

Recentemente, em entrevista ao semanário O País, o presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), D. Gabriel Mbilingue, afirmou que o receio do governo em relação à autonomia e à expansão da rádio reside nos debates em directo, com a participação dos ouvintes.

“Aquilo que sempre criou problemas, não nos iludamos, são os debates”, assegurou o arcebispo do Lubango.

Segundo D. Mbilingue, “se há algum temor, talvez seja disto – aqueles programas radiofónicos que interagem com o cidadão na rua e sobre isso não temos controlo nenhum”.

Censura

Sob a direcção do padre Quintino Kandanje, nomeado em Outubro de 2011, os jornalistas passaram a queixar-se com maior frequência de actos de censura directa.

“Enquanto exerci as funções de editor, muitas vezes o padre Kandanji vinha dar-me ordens sobre o que tinha de ser censurado. Ele não justifica. Diz apenas ‘não convém’”, explica Agostinho Gayeta.

Como exemplo, Agostinho Gayeta citou uma entrevista do representante do MISA – Angola, Alexandre Solombe, sobre as dificuldades do exercício da liberdade de imprensa em Angola. “O padre [Kandanji] não esconde. Ele censura directamente. Foi à redacção e disse ‘isso passa, isso não’, pronto”, explica o interlocutor.

Ao nível da direcção, a rádio conta com um director de informação, o padre Artur Handa Savita, enquanto a redacção tem como editor-chefe o jornalista Manuel Vieira. Mas cabe apenas ao director-geral o estrito controlo editorial da rádio.

“Temos reuniões de pauta. Há jornalistas que trazem já os seus assuntos, a sua agenda. Isso não funciona connosco”, defende-se o Padre Kandanji.

E exemplifica: “O que é que eu corto? Aquelas palavras que ferem. Eu, por exemplo, não deixo passar o [general] Bento Kangamba a enxovalhar alguém para provocar uma reacção.”

Como método, “normalmente eu oiço a peça com o jornalista e digo o que deve ser cortado e porquê. Há jornalistas que depois agradecem. É o que a nossa consciência de serviço nos aconselha. Preservamos a imagem de que servimos o público”, diz o director da Ecclesia. E defende-se: “Fala-se apenas que o padre expulsou jornalistas e cortou aqui e ali. Há interesses obscuros sobre os quais não podemos ceder. Seja a oposição, o poder ou a sociedade civil têm interesses que podem subverter os valores que a Igreja preserva.”

O padre queixa-se ainda de que ninguém se lembra de mencionar que também ele já foi criticado por dirigentes da comunicação social “por manter os microfones abertos aos ouvintes nos debates de sábado”.

“Durante as eleições [de 2012], os bispos pediram-me para desligar os telefones [da rádio] para que os ouvintes não interviessem em directo. Eu disse que não, tinham de permitir que as pessoas falassem e deixámos os microfones abertos”, revela.

A grelha de programas da Rádio Ecclesia também tem sofrido cortes e mudanças profundas. Jornalistas e direcção divergem sobre as motivações.

Um dos programas eliminados é o Sem Dúvidas, apresentado por Manuel Vieira, sobre os problemas que enfermam a cidade capital de Luanda, segundo a voz dos citadinos. O programa era emitido às terças e quintas. “Os ouvintes eram muito críticos”, confessa um jornalista que prefere o anonimato.

“Vamos tirar mais programas da grelha”, anuncia o padre Quintino Kandanji. Para si, “os programas têm de ter continuidade e reflexo pastoral por ordem dos bispos”.

Sobre o Sem Dúvidas, o gestor reconhece que “era o programa de maior audiência da rádio, patrocinado pela BBC Trust”.

“Quando cheguei[ao cargo de director], pedi à BBC Trust para fazermos o controlo editorial do programa de forma equilibrada. O projecto chegou ao fim”, argumenta.

Doadores

Desde o seu relançamento, em 1997, a sustentabilidade da rádio tem dependido, sobremaneira, de doadores internacionais. Várias organizações da sociedade civil têm também contribuído para a grelha de programas, com projectos sobre cidadania, justiça e direitos humanos.

A era do padre Kandanji veio alterar a relação com certos doadores e com organizações da sociedade civil. O director da Rádio Ecclesia explica que várias dessas instituições têm retirado o seu apoio financeiro “porque a rádio mudou”.

Cita um caso como exemplo: “A Open Society fez-me uma proposta para obrigar o Estado a agir contra nós.”

Como prova, o director partilha um e-mail que lhe foi enviado pela delegação da Open Society em Angola, datado de 15 de Março de 2012, em que a Open Society ajuíza não haver interesse, por parte dos bispos da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), “em levar a questão da extensão do sinal da rádio à mesa da discussão”.

No e-mail, a Open Society nota como se deu início a “um processo em Benguela de recolha de assinaturas para forçar o governo em autorizar a expansão do sinal, processo este que teve aderência da parte da Associação dos Leigos e no entanto a Rádio Ecclesia nem noticiou, os bispos nem sequer acolheram a iniciativa no sentido de poderem recolher mais assinaturas junto das suas dioceses”.

Com efeito, a Open Society anunciou o cancelamento temporário do projecto de apoio às rádios diocesanas, por um mês, para a tomada definitiva de uma posição sobre o seu contributo à Rádio Ecclesia.

A referida organização internacional foi mais longe e informou o seu parceiro de que iria tomar a iniciativa de convocar outros financiadores. “Aproveitaremos a oportunidade para reflectimos junto os demais doadores envolvidos no processo (União Europeia, BBC World Trust Service) para que possamos tomar uma decisão política em relação a este desinteresse da CEAST no processo”, lê-se na correspondência.

“Na rádio da Igreja, a linguagem deve ser de parceria. Temos de maximizar a acção da Igreja e não nos deixarmos puxar pela sociedade civil. A sociedade não nos pode impor uma agenda. A rádio é da Igreja segundo a consciência pastoral da Igreja”, reitera o gestor da emissora.

Um analista sumariza a situação da emissora católica com uma metáfora perspicaz: “a Rádio Ecclesia é a manta curta da Igreja Católica. Ou cobre a cabeça ou os pés.”

Ámen.

PRETÓRIA: José Eduardo Hause - Por Lucas Pedro

José Eduardo dos Santos house - Lucas Pedro

Pretória – Recentemente fui visitar em companhia de uns amigos (ou melhor, irmãos) alguns monumentos históricos e culturais – que marcaram, e influenciaram, fortemente na história da República de África do Sul no tempo do apartheid. 
                            Sambizanga: Where's the President house? 
Fonte: Club-k.net
Divulgação: Planalto De Malanje Rio Capôpa
21.03.2014
Coincidentemente estes monumentos localizados no município de Johanesburgo, província de Gauteng, foram visitados em Dezembro último na véspera do funeral do histórico líder do African National Congress (em português, Congresso Nacional Africano), Nelson Rolihlahla Mandela, por Barack Obama, Presidente norte-americano, em companhia da sua esposa Michelle Obama. 

Tratam-se do Museu do Apartheid (em inglês, Apartheid Museum), Hector Pieterson Museum e Mandela House (Casa de Mandela). Este último está localizado na rua Vilakazi (em inglês Vilakazi Street), número 8115, Orlando West, Soweto. 

No Museu do Apartheid fiz uma visita demorada, tendo em conta a sua dimensão estrutural e a forma como é descrito (com vídeos, fotografias e objectos) a história daquele país até no período em que o apartheid foi implementado e abolido em 1994 (o ano que realizou as primeiras eleições, vencida folgadamente por Mandela), após causar um sofrimento imaginável e rios de sangue e lágrimas aos negros sul africanos que eram tratados “piores que cães” pelos brancos, sobretudo os de origem boêr.

Vi e ouvi curtos e longos discursos e entrevistas do lendário Nelson Mandela, também conhecido por Tata (quer dizer papá) Madiba, antes e depois de ter sido eleito democraticamente (sem ajuda dos russos, brasileiros e espanhóis como aconteceu nas últimas eleições gerais realizadas em Angola) como Presidente da República de África do Sul, em 1994.

O que mais me impressionou foi, literalmente, a sua visão futurista (e convicta) de lutar por direitos iguais e sem discriminação racial. Em 1952, num discurso proferido em algures do seu país, Madiba falou e disse: “serei o primeiro Presidente negro deste país”. E assim aconteceu 42 anos mais tarde, depois de passar cerca de 27 anos numa cadeia de alta segurança em Cape Town.

Coincidência ou não, a Winnie Mandela – apesar do sofrimento vivido – também partilhava a visão de que um dia o seu então marido se tornaria Presidente daquele país. Numa entrevista exclusiva concedida a um canal televisivo sul africano, poucos anos após a detenção de Nelson Mandela, a jovem Winnie afirmou seguramente, com os olhos fixados à câmera, que o seu marido seria o primeiro Presidente negro de África do Sul. 

Neste museu encontram-se também patenteado alguns objectos pessoais de Mandela, utilizados antes e depois de se tornar Presidente, tais como “luvas de boxe”; instrumentos que utilizava na cadeia para partir pedras; o seu carro automático “Mercedes Bens”, cor vermelha, ofertado pela Mercedes após ter sido liberto da cadeia em 1990; o seu álbum onde contém algumas imagens fotográficas da sua família; algumas folhas de papéis onde constam os rascunhos dos discursos proferidos, etc..

Ainda neste museu vi e conheci, igualmente, a história de Steve “Bantu” Biko, um conhecido activista do movimento anti-apartheid, durante a década de 1960. 

Biko foi, primeiramente, membro da União Nacional de Estudantes Sul-africanos (National Union of South African Students). Insatisfeito com a sua primeira organização participou na fundação, em 1968, da Organização dos Estudantes Sul-africanos (South African Students' Organisation - SASO).

Este movimento protestava contra a medida imposta pelo regime do apartheid, que segundo as quais os cidadãos negros não podiam estudar na mesma escola, ou universidades juntamente com os “estudantes” brancos. Talvez seja por isso que em 1972, tornou-se presidente honorário da Convenção dos Negros (Black People's Convention).

Em março de 1973, no ápice do regime do apartheid, foi "banido". Steve Biko estava proibido de comunicar-se com mais de uma pessoa e de realizar discursos. Também foi proibida a citação a qualquer de suas declarações anteriores, tivessem sido feitas em discursos ou mesmo em simples conversas pessoais.

A 6 de Setembro de 1977, Esteve Biko foi preso num controlo rodoviário organizado pela polícia sul-africana. Levado sob a custódia. Foi acorrentado às grades de uma janela da penitenciária durante um dia inteiro e sofreu grave traumatismo craniano. 

Em 11 de Setembro, foi embarcado em veículo policial onde seria levado para outra prisão. Biko morreu, aos 31 anos, durante o trajecto e a polícia justificou que a sua morte deveu-se pelo facto do mesmo ter feito uma greve de fome, durante os cinco dias em que esteve detido.

Fisionomicamente, Biko possuía alguns traços (a sua aparência e a forma enérgica como proferia os seus discursos, sem rascunhos) com o lendário Comandante Nito Alves, que fora igualmente assassinado após os acontecimentos do 27 de Maio de 1977, ocorridos em Angola. 

No dia 7 de Outubro de 2003, autoridades do Ministério Público sul-africano anunciaram que os cinco policiais envolvidos no assassinato de Biko não seriam processados, devido a falta de provas. Alegando também que a acusação de assassinato não se sustentaria por não haver testemunhas dos actos supostamente cometidos contra Biko. 

Levou-se em consideração a possibilidade de acusar os envolvidos por “lesão corporal” seguida de morte, mas como os factos ocorreram em 1977, tal crime teria prescrito (não seria mais passível de processo criminal) segundo as leis do país.

No final da minha demorada visita a este local histórico, dirigi-me a Hector Pieterson Museum, juntamente, na parte exterior, doHector Pieterson Square (localizado no Soweto), um local que no tempo do apartheid se registou um dos piores massacre contra menores. 

Mais de 100 de adolescentes foram impiedosamente mortos a tiros pela polícia em 16 de Junho de 1976, dentre eles Hector, um adolescente de apenas 13 anos de idade. Dados extra-oficiais, apontam que o número real seria de mais de 300 vítimas.

Após a chacina, Hector Pieterson tornou-se um símbolo do levante em Soweto a partir de uma fotografia feita por Sam Nzima que circulou por todo o mundo. A imagem mostrava Hector já morto, coberto de sangue nos braços de um desconhecido que decidiu ajudar o pequeno, ao lado de sua irmã mais velha que regressava da escola, fugindo os disparos da polícia.

O adolescente tornou-se posteriormente a face do massacre após a publicação daquela fotografia que circulou em todo o mundo no dia seguinte à tragédia. E ironicamente este [o pequeno Hector] transformou-se num dos símbolos da luta contra o apartheid.

Na altura da visita encontrei um grupo de turistas francês no local. O que mais me surpreendeu foi às palavras destorcidas da guia (dos turistas) que explicava, em francês, ao grupo que “(...)a história de um país é sempre escrita por aquele ganha...”.

Pessoalmente achei deselegante as suas palavras, uma vez que a mesma, de raça branca, tentava justificar os actos, maquiavelicamente, cruéis praticados pelo regime do apartheid contra os negros sul-africanos, que somente exigiam o tratamento igual.

Por fim, depois de menos de uma hora, dirigi-me em direcção a Mandela House, ou melhor Casa de Mandela, cujo endereço é: 8115, Vilakazi Street, Orlando West, Soweto. Fiquei boquiaberta ao mesmo tempo fascinante no que constatei “in loco”. I can’t believe!!! Exclamei ao ver a residência onde viveu o então Presidente sul-africano e a sua família, durante 44 anos (isto é de 1946 a 1990).

Esta modesta residência (construída num terreno de 20x20), localizada num bairro comum e bem movimentado, fora doada pelo o próprio Mandela a Soweto Heritage Trust a 01 de Setembro de 1997, a fim de ser usada como um patrimônio histórico.

“Mandela House tem como missão proporcionar uma experiência eficaz, eficiente e significativo para todos os visitantes, informando-os sobre a história do Presidente Nelson Mandela, tanto no contexto de sua casa e no contexto de sua vida, de uma forma que promove os direitos humanos, a democracia, reconciliação, respeito mútuo e da tolerância entre os povos da África do Sul”, segundo a gerência do espaço. 

Este espaço é gerido pelo Soweto Heritage Trust, em parceria entre a cidade de Joanesburgo, o grupo Standard Bank e do Departamento de Desporto, Arte, Cultura e Recreação de Gauteng.
A 16 de Março de 1999, o Conselho de Monumentos Nacionais sul-africano declarou a mesma como um “Monumento Nacional”, segundo o Diário do Governo n.º 19.719, publicado em Fevereiro de 1999.

Ironicamente, ao reparar (o lado de fora) da “Mandela House”, lembrei-me do meu colega de profissão Makuta Nkondo que foi chamado, há escassos dias, pela Procuradoria Geral da República (PGR) pelo simples facto de questionar as origens – ou melhor, o local do nascimento – do Presidente da República angolano, José Eduardo dos Santos.

Sem quer me meter no assunto (mas já me meti), embora seja também do meu interesse, considero ser legitimo a preocupação de Makuta Nkondo em querer saber mais sobre as verdadeiras origens do (seu) Presidente.

Quanto a mim, agora só pretendo saber, seriamente, o seguinte: Em que bairro nasceu, viveu e cresceu o nosso (ARQUITECTO DA CORRUPÇÃO E DA MISÉRIA) Zé Dú?

Por outro lado, lembrei-me das palavras do nacionalista Lúcio Lara quando conferia posse a este [José Eduardo dos Santos], em 1979, após a morte misteriosa do sanguinário Agostinho Neto na Rússia, ter dito de boca cheia que ele (JES) nascera em algures de Luanda. Sem, no entanto, especificar, concretamente, o local.

Durante estes todos os anos, ouvem-se várias vezes a dizer que o Presidente da República nasceu e viveu no bairro Sambizanga (mais conhecido, no tempo colonial, por Bairro de Lata). E os mentores dessa balela, nem mesmo o próprio JES, nunca conseguiram apresentar publicamente uma residência (que não se sabe de concreto se é de chapa ou de madeira), ou mesmo a rua onde esta localizada a mesma.

Por conseguinte, seria de louvar caso verdadeiramente fosse esclarecido este mistério da “casa” deste patriota (como quer ser lembrado) para que o nosso Ministério da (des)Cultura juntamente com as outras instituições competentes, autorizassem a sua transformação para “José Eduardo dos Santos House”, igualmente a exemplo do Museu Oscar Ribas.